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Texto de Berenice Sica Lamas por ocasião do lançamento do livro IMAGENS, na livraria Cultura em 10/2012
07/10/2013

IMAGENS  DE MYRNA 
Berenice Sica Lamas

Obrigada, Myrna, por eu estar aqui nesta mesa inaugurando mais um livro teu – já faz um tempo que me sinto a eles entrelaçada através do trabalho de orientação de produção textual algumas vezes, pela apresentação da aba no livro coletivo de ensaios - desde a Itália, via virtual, orientei o 1º livro de poesias, com pinceladas autobiográficas, poemas muito interessantes (aliás Myrna me visitou em Bologna), auxiliei na transformação de sua tese em livro, tornando mais acessível ao público - enfim, esta história toda começou no Scrivere, meu espaço de criação literária, onde frequentou oficina de texto comigo, qualificando e aperfeiçoando sua linguagem escrita, tanto em nível da ficção quanto da escrita técnica – e hoje se origina na  exposição das esculturas de Myrna  na galeria Mosaico na Padre Chagas.

Acredito que o motivo de eu estar aqui é o poema criaturas tuas que generosamente publicou neste livro IMAGENS, escrito por mim em 1999 após visitar sua exposição citada. Além de já tê-las exposto,  Myrna decide fotografá-las e organizar em livro, no qual contextualiza cada uma em momentos de sua vida e na história coletiva.

Tudo isso para contar a vcs que meu vínculo com Myrna se configura a partir das coisas da linguagem escrita... quando ela me contou que estava fazendo um livro com as imagens, ou seja, com suas esculturas fotografadas, reunidas e impressas, acompanhadas de texto autoexplicativo, fiquei muito feliz e considerei a ideia muito criativa.

Mas vejamos o poema criaturas tuas:

mulheres desaprisionadas
de cozida argila terracota
nascem envelhecidas
desfolhadas
entre esverdinhada pátina

mulheres feridas maceradas
lanhadas, do barro desveladas
mãos de forno
mãos de festa
ofertas da vida

apesar de oxidadas correntes
dos fragmentos do corpo
em ebulição

olhos de secas torneiras
prestes a verter toda água
contida e afogar o barco

olhos mascarados
olhares de viés

mulheres gestando
maternagem leite mel
livro ao joelho
sequeladas mulheres

da fragmentação à síntese
delírio reparação criadora
da escultora às esculpidas

mulheres de inconscientes expostos

Constituiu-se o modo como senti aquela exposição, aquelas mulheres, naquele momento – o poema é minha leitura no momento -       a escultora é quem se expõe. Arte escultórica agora junto à escrita memorialística neste belíssimo IMAGENS que ela entrega ao público.

O fio condutor deste IMAGENS são as próprias esculturas que fotografadas e impressas ganham um duplo interessante. Arranca das esculturas as memórias aprisionadas e as transfere em escrita – porém como artista e escritora que é sabe que o sentido atribuído às obras não são os sentidos definitivos, verdadeiros, oficiais, nem os únicos, o leitor se apropria da arte conforme também simbolismos pessoais e singulares.

Há pinceladas poéticas em seu texto, que encantam, por exemplo: deixar a mente divagar, olhar para o céu azul sem compromissos... eis q formas surgem e flutuam por algum tempo antes de se desfazer no horizonte infinito ... – quase matéria de ficção – são micro narrações em cada escultura correspondendo a fatos de sua vida – frases curtas, no máximo médias, em que revisita e procura o passado, com fatos mais marcantes – ela não cria uma mitologia pessoal e nem para suas obras, permanece nos fatos simples de sua trajetória – por serem simples não quer dizer que não surjam intensos e doídos, por vezes amargos, e talvez desponte algum ressentimento – são memórias e não memórias, se transformam em ficção, porque já modificadas pela autora, recriadas ... no momento em que são escritas, no papel já passam à ficção e podem ser apropriadas pelo leitor -  neste IMAGENS escolhem-se signos imagísticos e signos linguísticos.

Escreve de modo claro e preciso, em momentos poéticos que fluem, ela e sua multiplicidade, uma poeta e bastante experiente da escrita de prosa –   as aquarelas também ímpares.  
Myrna pavimenta seus caminhos, expõe fragmentos de suas vivências.  

No livro Psicanálise e arte:é possível que o próprio artista busque eternizar na obra, de maneira simbólica, os objetos de seu amor, conferindo-lhes a vida de alguma forma” (Myrna). Na aba do mesmo: “a dor do artista alimenta a beleza das obras q vao brilhar p seus admiradores, leitores ou expectadores (Edgar Morin). 

Geografia de Myrna - Pelotas, Povo Novo, Rio Grande, Porto Alegre, Gramado, Torres, estadias e viagens ao exterior – transita por outras geografias e espaços, o binômio arte ciência. Há contraste entre a materialidade da escultura e detalhes e objetos delicados como a máscara, flores, corrente, mais efêmeros.  As esculturas são formas emissoras de significado, a forma projeta sentido, são aparelhos de significar – e mesmo que ela se autoexplique no texto, o leitor também intervém, interfere. A pátina, por exemplo, faz parte do envelhecimento estético. As obras de Myrna possuem uma eloquência estatuária ou escultórica por si, da terceira dimensão - pela arte que representam – e ela ainda acrescenta a escritura. Defrontamo-nos com a Arte não verbal e a verbal (escrita) e nós aqui acrescentamos nesta mesa de apresentação a terceira: a verbal oral. Discursa sobre o não verbal, não pode ser reducionista, ela sabe que os sentidos que produz não são os únicos... eles são provisórios, precários, o sentido da obra. 

Seu texto é pontuado por garimpagens em outros autores, chamando-os para enriquecer o relato: poetas e escritores Vinicius, Casimiro de Abreu, Erick Fromm, Isabel Allende; músicos compositores Giacomo Puccini, Milton Nascimento, Chico Buarque; artistas plásticos Chagall; textos bíblicos, contos de fada, outras esculturas: a Vitória de Samotrácia. Portanto, faz-se presente uma diversidade de influências e fontes inspiradoras de várias artes. Ou seja, uma colagem expressiva que confere uma riqueza insuspeitada ao texto. As esculturas ganham amplidão com este diálogo.  

Demandas internas de Myrna -  homenagens discretas e afetivas às filhas Ana Luiza, Laura e Júlia.  

Com todos estes vínculos, aprendi a respeitar e admirar Myrna - esta mulher perseverante, estudiosa, realista e amiga, de amplo leque de interesses científicos, culturais e artísticos.  Pioneira em algumas ideias, provocativa, critica. Os fragmentos constelam a mulher madura, psicóloga, dentista, psicoterapeuta, escultora, poeta, professora, ensaísta, palestrante. A mulher inteira facetada nos textos como espelhos dos papéis exercidos.  

Parafraseando Fernando Pessoa - da epígrafe de seu livro Psicanálise e arte – somente quero torná-la significativa, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo (e a minha alma) a lenha deste fogo – Myrna com mais este livro, ressignifica cada vez mais sua vida, e seu talento é a lenha  de seu fogo. Concluo utilizando suas próprias palavras, autora e artista, de seu livro de poemas Para viver nascihouve um tempo no qual /além do leite/ bebi mel fel/ nesse tempo/ como poderia/ falar disso? Continuo te percebendo, Myrna, este “potro indomado/correndo pelos campos” até o ultimo fiapo de nuvem no céu” como dizes no poema  Intenções.
Parabéns Myrna, que este livro te propicie tantas alegrias ou mais do que os outros.

Berenice Sica Lamas         
Out/ 2012  -  livr. cultura

 

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