Entrevista

Perfil


Myrna no atelier de Dione Greca Moraes, confeccionando a peça “O Abraço”


Entrevista cedida à Laura Arteche

Psicóloga, Dentista e Artista Plástica. Esse seria um resumo já grandioso, porém muito simplificado, do trabalho da gaúcha Myrna Cicely Couto Giron, que não só estabeleceu sua carreira nas três áreas, como explora diversos outros universos no mundo da arte e da cultura.


Nascida em Pelotas em 1936, Myrna teve seu modo de vida sempre relacionado ao criar. Quando pequena, confeccionava suas próprias bonecas de pano. Durante a II guerra, a partir de cenas vista em jornal do cinema, nas quais soldados feridos eram tratados em hospital, inspirou-se para criar seu próprio hospital com seus pacientes- pedaços de lenha- tratados com pomadas (giz amassado com água) e bandagens. Além disso, o hábito da leitura como fonte de instrução e de prazer instalou-se cedo em sua vida. Sofreu de tuberculose dos 10 aos 14 anos, foi tratada e não precisou abandonar a escola. Junto a isso, havia o sofrimento de sua mãe, (a mãe tinha 32 anos!!!)o que inaugurava a compreensão do sentimento de perda na mente dessa pequena menina artista. Anos mais tarde, quando se casou, teve sua união interrompida após seis anos, com a morte prematura do marido por aneurisma cerebral. Ela e suas três filhas compartilharam, a partir daí, um universo feminino com o qual Myrna já estava acostumada antes do casamento. Desde sua infância, além de freqüentar à escola somente com meninas, vivia em um mundo de tias e primas, praticamente sem contato com rapazes até começar a faculdade de Odontologia. Isso talvez explique por que suas obras de arte são fortemente ligadas à realidade da mulher.

No ano de 2004, Myrna defendeu sua tese de doutorado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que deu origem ao livro “Psicanálise e Arte, A Busca do Latente”, trabalho premiado pela FUMPROARTE. Segundo Myrna, “a criatividade artística é mutideterminada – de um lado as características individuais com suas habilidades específicas em algumas áreas, e de outro, as experiências vividas na infância precoce. Em especial aquelas que se referem a perdas.” Para expor essa problemática, o livro é também uma viagem através da história da arte, trazendo explicações interessantes desde a pré-história até os tempos contemporâneos, com exemplos de artistas e suas obras. Atualmente, Myrna desenvolve atividade privada, após 23 anos de docência na faculdade de Psicologia da PUC-RS. Desde que se aposentou da Odontologia tem realizado exposições individuais e coletivas, mostrando aos cidadãos gaúchos o que eles mesmos caracterizam como obras “tocantes.”

Muitas das peças da artista são realizadas em terracota, mas segundo o falecido escultor naturalizado brasileiro Xico Stockinger, em uma ocasião em que as viu, disse que mereceriam ser realizadas em bronze, pela sua beleza. Entre essas peças destacam-se “Torneiras Fechadas” e “Explode Coração”. A primeira propõe o fim ao pranto de uma mulher que muito sofreu e agora não chora mais, e a segunda evoca uma figura feminina segurando o próprio coração. A artista ressalta que é alguém cujas feridas o mataram, porém deixando-o vivo: “Lembras de um tango argentino que começa mais ou menos assim, se jo tuviera el corazón, el mismo que te di...?” Seguindo uma outra dimensão, Myrna explora ainda a tristeza e a velhice como fatores proibidos atualmente na cultura ocidental. Essa crítica é expressa em uma escultura, também em terracota, de uma mulher madura que esconde seu rosto com uma máscara. A artista argumenta que “a máscara é um elemento ambíguo, pois ao mesmo tempo em que oculta, revela.” Ela adiciona também que a própria postura da peça, um pouco encurvada, expressa depressão e tristeza. Pode-se dizer que essa escultura é o reflexo de situações vividas pela artista, quando em duas situações foi recusada para cursos de aperfeiçoamento profissional por ser mais velha. Essa peça serve também como ponto de referência em seu livro, no capítulo final, onde ela explica como tentar entender o sentido de uma obra de arte visual.

A artista ressalta que, apesar da prevalência da figura feminina em seu trabalho, essas mulheres todas exprimem os sofrimentos, vitórias, angústias e alegrias compartilhadas por todos os seres humanos independentemente do seu gênero, e argumenta: “se considerarmos somente a figura e o que ela está querendo expressar, veremos que as coisas se abrem imensamente, dando um sentido universal à obra, pois os homens também amam e podem ser afetivamente feridos ou recusados no trabalho quando envelhecem.”

Mas a artista não pára por aí. Em 2008 lançou um livro de poesias intitulado “Para viver nasci”, no qual poesias e aquarelas da autora se completam em um conjunto delicado que conduz à reflexão. Assim como a Literatura, a música também é uma de suas paixões. Ela explica: “nunca tive disciplina o suficiente para aprender um instrumento musical, mas cantar é o meu chão. Sempre participei de corais e, apesar da idade, continuo sendo um soprano de voz bem clara e limpa!” E haja fôlego para essa gaúcha multidisciplinar que, além do currículo impecável, ainda respondeu a algumas das perguntas dessa entrevista utilizando citações em Francês.

Publicado originalmente em
www.presencialatinoamericana.com.ch


19/08/2009

 

 

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